A Odisséia de Penélope - Jacineide Travassos


Este blog é para o logonauta que, como Penélope de Homero, viaja em abstrato por diversas cidades,  para  quem a nostalgia é a raiz da aventura épica. Nostalgia de um pão invadido pelas ondas, um mar caudaloso de sílabas em busca da poesia, música, pintura, cinema, dança, filosofia, teoria literária e críticas universais.

(saudade - Almeida Jr)

 A Penélope Epistolar mudou de endereço:

http://aodisseiadepenelope.blogspot.com/

Aguardo a visita de Vocês na nova casa onde vive o Vento!

Um Abraço!



Escrito por jacineide às 01h57
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CANÇÕES DO VENTO E DA MINHA VIDA

(Manoela Afonso)

Essas imagens de Manoela Afonso traduzem o vento em mim! cabelo ao vento, esboço de tantos rostos...cabelo negro ao vento... enroscado no fio da palavra-flor...

"os cabelos são signos"... (Pasolini - Os Jovens Infelizes)

Foi com imensa alegria que recebi de Manoela o aceno na palavra sim para ilustrar o meu livro! por dentro sou toda brisa de zéfiro! conheçam o trabalho dessa jovem artista  do BRASIL, Centro-Oeste, GOIANIA! Visitem  Manoela e sua casa,  como diria Le Corbusier: "machine à emouvoi", máquina de emocionar:

 http://manoelaafonso.zip.net/index.html



Escrito por jacineide às 03h57
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O Vento Vivendo na Casa          

 

vento e mar talharam-se no meu corpo

cessar tua estação em mim foi impossível

 

sorvi o sumo que sopra nos ares a maresia

roubando-te estrelas marinhas para emprestar à noite

siderei-me no teu céu sem vestes

tingindo-me azul têmpora tronco e membro

 

colhi versos nos teus olhos

coisa pássara

pousados nos girassóis

violinos deitaram adágio sobre a terra de ti

casa de sementes imersas lírio e orvalho

Escrito por jacineide às 03h54
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O Vento Vivendo Na Casa

Poema Segundo

 

O vento vivendo na casa

Cavalo branco crina d’aurora

Galopa  rosa o verde dos limões

Acorda galos

Canta nas árvores o que há de folhas e pássaros

 

Como coisa pássara

O vento vivendo na casa

Nada anuncia dos céus senão asas

O vento vivendo na casa

Diz da lua brilho e brilho de ágata

Da lua

Sopra

Metais e metais de sinos

Dos sinos

Sopra

Um metal que diz das águas

 

O mar

Maré de ti 

O mar

Tua maresia

 

Nas ondas o que não é prata

Deita sobre a terra um branco de pombos e asas

Até que sopre o verbo um brilho de facas

E os cavalos bebam e bebam das águas

Matizando em galope todo o sal

Para acender os astros

 



Escrito por jacineide às 03h21
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Ah! pernambucanos! Tenho por eles uma admiração estupefata. Dessa província do Nordeste nos vem a poesia menos nordestina possível! Como a de João Cabral, que ordena seus jogos sábios numa atmosfera isenta de qualquer localismo...Os mesmos Bandeira e Joaquim Cardozo, que por vezes se detém a cantar amorosamente o Recife, já superam nesse canto a simples visão imediata. A terra natal fica sendo ponto de partida para uma viagem aos países da geografia interior. Assim são os pernambucanos.

(Carlos Drummond de Andrade).



Escrito por jacineide às 03h13
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A POÉTICA DOS VENTOS E A LÍRICA MODERNA: JOAQUIM CARDOZO

(Manoela Afonso)

 

O texto é longo? é só copiar, imprimir e ler!

 

Neste ensaio, faço um breve comentário sobre a obra do poeta pernambucano Joaquim Cardozo. Procuro mostrar, através de alguns  poemas, sobretudo o poema Congresso dos Ventos, que  a obra de Cardozo cada vez mais se afasta do regionalismo telúrico, alcançando uma poética  universal,  e  da poesia tradicional instaurando  uma lírica  moderna.

 

Joaquim Cardozo nasceu no dia 26 de agosto de 1897, no subúrbio recifense do Zumbi, morreu também no Recife, em 4 de novembro de 1978. Filho de um modesto guarda-livros, Antônio Cardozo e de dona Elvira Maria Cardozo. Foi o nono irmão de uma  família de doze filhos. No sobrado de duas águas, situado à Av. Caxangá n. 624, Cardozo viveu até os dez anos, quando mudou-se com a família para Jaboatão. Joaquim Cardozo foi engenheiro, foi teatrólogo. Formou-se como engenheiro na  Antiga Universidade do Recife, hoje Universidade Federal de Pernambuco. Muito jovem tornou-se  professor catedrático, especializado em cálculo e desenho. Extremamente culto, dominava cerca de doze idiomas, inclusive o chinês, o russo, e o sânscrito. Durante algum tempo exerceu a atividade de crítico de artes plástica através das revistas Módulo e  Paratodos.

O ano de 1939 assinala as razões da partida do poeta. Trabalhava como funcionário público no Departamento de Viação e Obras Públicas, na época do Estado Novo. Não aceitando, como engenheiro, a incumbência de construir uma estrada de terra – alegando que sua especialidade era o concreto armado – foi demitido e acusado de incapacidade técnica. Esse episódio motivou sua ida definitiva para o RJ, no ano seguinte, ou seja, 1940. Foi no Rio que a partir de 1941, começou a trabalhar com o arquiteto Oscar Niemeyer, fazendo os cálculos dos seus projetos, dentre estes os edifícios do Conjunto Pampulha, em Minas, e mais tarde os cálculos dos edifícios da nova capital Brasília, o Palácio da Alvorada,  o Palácio do Itamarati, a cúpula do Congresso Nacional e outros. Mas, como assinala Maria da Paz Ribeiro Dantas, especialista em sua obra, foi antes de tudo um poeta. Na verdade, seu olhar de poeta é um olhar caleidoscópico, plural, porque capta os elementos de todos os outros campos de atividade a que Cardozo se dedicou. Como nos lembra José de Alencar - em carta que escreveu para apresentar Castro Alves a Machado de Assis -  a genealogia de um poeta começa com sua primeira poesia.



Escrito por jacineide às 03h03
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Ao completar 50 anos, suas composições foram reunidas, por iniciativa de seus amigos, em uma coletânea que recebeu o título de Poemas (1947). Em 1960, surgiu Signo Estrelado, livro em que se observa o lento mais progressivo distanciamento do autor dos temas regionais, o que iria intensificar-se em Mundos Paralelos (1970)  e Trivium (1970), obras que despertaram as melhores atenções da crítica no Brasil e no exterior.  Um Poema Aceso e Nove Canções Sombrias (1981) foi uma publicação póstuma. Joaquim Cardozo também escreveu poesia caligráfica, onde o trabalho poético realiza-se no jogo entre as palavras e os signos gráficos.  Muitas dessas poesias foram  eliminadas das suas publicações. Esses poemas inéditos de Joaquim Cardozo fazem parte do livro Nove Canções Sombrias e Sete Cantos Iluminados. Da cópia original, de Adamastor Câmara Ribeiro, estando em poder de Maria da Paz Ribeiro Dantas, foram cedidos alguns caligramas inéditos  publicados na revista Pasárgada.

A poesia de Cardozo, apesar do seu efeito encantatório imediato junto ao leitor,  é uma poesia complexa. O poeta e crítico César Leal referenda que  o livro Poemas publicado em 1947, assegurou-lhe um lugar na primeira linha  entre os poetas do Modernismo brasileiro. O espaço urbano na vida e na poesia de Joaquim Cardozo convive com uma aspiração  pela Natura e pelos elementos cósmicos. Poesias como Imagens do Nordeste, Recordações de Tramataia, Ventos, Puidos Ventos, Figuras do Vento, Cajueiros de Setembro, A Várzea tem Cajazeiras  e Congresso dos Ventos  contém imagens que personificam a natureza. Os trabalhos de levantamento topográfico que fizera nos arredores do Recife, na época repleto de sítios muito arborizados, e na Várzea do Capibaribe marcaram sua poesia. Mas, a obra de Cardozo  parece dizer que o poeta que canta a sua cidade também canta o mundo. O poeta, como lembra Ezra Paund, é a antena da raça. Em Congresso dos Ventos, Os Ventos simbolizam a humanidade, trata-se de um entrecruzamento de vozes, traduzem o diálogo entre os homens de modo universal. Partindo da várzea do Capibaribe o poeta alça seu vôo cósmico covocando os ventos do mundo:  Hamatã da Costa Guiné, Cansim representante da margem do Nilo, Garbino vindo das praias catalãs, os Alísios do Equador, o Terral e seu sopro lírico, entre tantos outros ventos.

Joaquim Cardozo recorre ao processo de personificação, onde os elementos da Natura e do cosmos assumem a função de dramatis personae, o Eu Lírico, afasta-se verbalmente, assume o olhar de quem observa, dilui-se na materialidade da linguagem. Assume o distanciamento da terceira pessoa. Quem age e fala na poesia são os ventos Na várzea extensa do Capibaribe, em pleno mês de agosto/Reuniram-se em congresso todos os ventos do mundo. (...).

Todas as ações humanas são atribuídas aos ventos, tais como respirar falar, dançar, contar histórias de feitos guerreiros. Mas um vento se destaca por seu caráter sereno, nostálgico  e  lamentoso , o Vento do Nordeste: - Eu que, há trezentos anos, desembarquei das velas do [almirante Lonq/ Na praia de Pau Amarelo,/ Que tremulei nas flâmulas e nas bandeiras das naus de[ D. Antônio de Oquendo/ Aqui estou, nesta várzea, reduzido a professor de meninos:/ Hoje vivo a empinar papagaios...

A poesia de Cardozo aqui se afasta do “eu pessoal” tão caro à poética dos românticos. Mas, não abdica  totalmente do elemento humano. Pois a razão de existir do Vento são os meninos. É muito curioso o processo com o qual vai cosendo seu texto, os objetos, como o papagaio e  as agulhas, elementos, como a areia, e as ações, são recursos utilizados para dar  concretude ao vento: “Mistral com seus cabelos de agulha, e os seus frios de dedos finos/ Simum com  arrepiadas, severas e longas barbas de areia quente.  O vento também representa aqui a união do plano celeste com o terrestre, daí as barbas de areia de Simum, assim como Barinez respira doçura de rios azuis e Cansim que envolve altas nuvens de areia. Os ventos encerram seu Congresso com danças de roda, músicas e cantos de toda parte do mundo, de mares tempestuosos, capoeiras,  redemoinhos, parafusos, piões e rodopios. As ações concretizam o vento. Parafraseando Carpeaux, quando diz que a dança é música visível, digo que  a dança é o vento visível. O elemento popular merece destaque, traduz  o  gosto pelo folclore presente de maneira marcante  no teatro cardoziano.



Escrito por jacineide às 03h02
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Do ponto de vista dos recursos expressivos da linguagem, o poema demonstra que Joaquim Cardozo possui um perfeito domínio da camada imagética e sonora da linguagem. Não se pode esquecer que toda grande poesia deve articular bem a imagem-som: O último que se pôs a caminho foi o vento Aracati:/  - Cortou uns talos de chuva/ Com eles fez uma flauta/ E se foi, tocando e dançando/ E se foi, pela estrada de Goiana. A  musicalidade dos versos foi obtida pela  repetição aliterante do t e do f. As palavras flauta e Goiana são rimas assonantes, a anáfora também aparece como recurso sonoro: E se foi.../ E se foi... . A imagem  na poesia alcança efeito sinestésico, pois a dimensão tátil da chuva é traduzida numa sensação auditiva: os talos da chuva são a flauta e a canção do vento. Um outro momento de grande labor de linguagem e efeito encantatório está na nesta gradação imagética: Onde o grande céu se encurva sobre verdes e verdes. O poeta  realiza  uma perfeita cromossonia, enfatiza a um só tempo a sonoridade e a plasticidade da poesia. Ao repetir verdes e verdes, além da musicalidade, sugere a  imagem do mar e das árvores.

Em sua aspiração cósmica, Cardozo usa o vento como elemento comum entre povos distintos e união entre os homens da terra. Somos enfim o ar que respiramos. O Vento é a nossa própria existência. O sopro inicial é o verbo, somos nós. Anaxímenes, filosófo pré-socrático, defendia que o universo resultava das mutações do pneuma áiperon (ar infinito), como nossa alma que é ar, soberanamente nos mantém unidos, assim, também todo o cosmos sopro e ar o mantém. O vento são todos os ventos, dizia também Victor Hugo.  

Segundo uma definição colhida da poesia romântica e generalizada muito sem razão, a lírica é tida muitas vezes , como a linguagem do estado de ânimo, da alma pessoal. Diz Hugo Friedrich, em sua obra Estrutura da Lírica Moderna, que o conceito de estado de ânimo indica distensão mediante o recolhimento, em um espaço anímico, que mesmo o homem mais solitário compartilha com todos aqueles que conseguem sentir. É justamente essa intimidade comunicativa que a poesia moderna evita. Ela prescinde do humano no sentido tradicional do termo, da experiência vivida, do sentimento e, muitas vezes do eu pessoal do artista. Este não mais participa em sua criação de modo particular, porém como inteligência que poetiza, como operador da língua, como artista que experimenta os atos de transformação de sua fantasia imperiosa ou de seu modo irreal de ver num assunto qualquer, pobre de significado em si mesmo. Isto não exclui que tal poesia nasça da magia da alma e a desperte. Trata-se de algo diferente de estado de ânimo, embora sem abdicar do lirismo. Trata-se de uma polifonia, a voz poética não mais quer participar de uma subjetividade solipsista, egocêntrica, individual, multiplica as vozes para melhor se sentir. Ortega y Gasset,  ao descrever este fenômeno, assinala o que chama de desumanização da arte.

Creio que o projeto poético de Joaquim Cardozo, coincide com o dos poetas que ,segundo Friedrich, fundam a lírica moderna. Entre eles estão Baudelaire, Rimbaud,  Garcia Lorca, Francis  Ponge,  Montale. O que marca a evolução da obra de Cardozo  é cada vez mais o afastamento do confessionalismo romântico, do puro regionalismo provinciano. A voz poética cardoziana cada vez mais se coletiviza nos seres e nas coisas que observa. O grito de sua poesia é dado pelos elementos da natureza, pelos objetos que alegorizam o ser. Eis o  poema As Alvarenga, do seu primeiro livro: As Alvarengas! / Ei-las que vão e vêm; outras paradas, / imóveis. O ar silêncio. Azul céu, suavemente.(...) E seguindo-as também em curvas n’água propagadas, / A dor da Terra, o clamor das raízes. É um poema que realiza uma aspiração cósmica, mas também denuncia a dominação da cidade sobre o campo. A lei dos homens impondo à natureza indefesa a destruição. Aqui o homem é o elemento nocivo, e a terra  lança o seu grito.

Escrito por jacineide às 03h02
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 Mesmo em um poema como Imagens do Nordeste , também do primeiro livro, que  foi construído na primeira pessoa e de tema regional, o poeta mostra-se já como um operador da língua, como um esgrimista da linguagem: A minha casa amarela/ Tinha seis janelas verdes/ do lado do sol nascente;/ Janelas sobre a esperança/ Paisagem, profundamente. O jogo cromático é solene pela inventividade. As seis janelas verdes não se restringem a um elemento concreto, aqui a cor verde é veículo do  abstrato, indicializa uma idéia: a esperança. O poeta, mais uma vez contrariando os padrões estéticos do romantismo, abdica totalmente dos adjetivos e nos surpreende. Ao invés de adjetivar a palavra Paisagem, que seria o comum, ele faz uso do advérbio: Paisagem, profundamente. Este mesmo recurso é empregado no poema já citado As Alvarengas: O ar silêncio. Azul céu, suavemente. O adjetivo, nesta passagem, é descartado duplamente, o que qualifica o ar é um outro substantivo: ar silêncio.  Mas, como nos lembra Horácio em sua Arte Poética, ou Epistula ad Pisones, quando não se quer seguir uma estrada batida, o que se renova na linguagem deve ter consistência, é o que nos demonstra Cardozo. Do contrário, diz Horácio, a montanha entrará em trabalho de parto e há de parir um camundongo.

Trivium é  considerado por césar Leal como uma das  três ou quatro expressões máximas da poesia brasileira do século XX.. Neste livro Cardozo leva a termo  o mesmo princípio de aspiração cósmica e  unificação entre as linguagens observados em Congresso dos Ventos. Trivium significa  o ponto de interseção de três caminhos, o ponto de encontro onde as coisas ou seres falam a mesma linguagem. Na Idade Média significava a união entre a Retórica, a Gramática e a Lógica. Neste livro Cardozo consolida sua lírica moderna. A voz poética cada vez mais distancia-se do humano e aproxima-se dos elementos cósmicos, das coisas,  fala através deles, como em Prelúdio e Elegia de Uma Despedida:  No seio desta noite ouvi um choro prolongado. Pareceu-me a princípio que era o vento/ Agitando as árvores do jardim,/ Ou que eram vozes distantes, em serenata;/ /Mas um pranto, um pranto tão sentido,/ Tão perfeito e derramado/ Como se descesse das estrelas/ Como se viesse das montanhas/ Como se subisse da terra fria ou da noite das águas. Mas,  porque choravam?

A peculiaridade de Joaquim Cardozo está no fato de que o poeta distancia-se do elemento humano sem nunca abdicar dele. Procura sempre intersecionar o humano com a natureza e as coisas, ainda que o poema seja narrado na terceira pessoa: Visão do último trem subindo ao céu/ tocando um sino de despedidas/ -Saindo vai da última estação-/ Através da noite vai...da noite iluminada/ Pela luz do casario; vai, do povoado,/ Passando ao longo dos quintais./ Pelas janelas do trem os passageiros/ Espiam os afazeres das pessoas. No Último Trem Subindo ao Céu, a voz poética  adota a visão de um trem: O trem se desliga da vida. Mas dentro dele  há passageiros, há homens que vêem a vida passar também sobre os trilhos. A singularidade de Joaquim Cardozo consiste no fato do elemento humano, do homem contemplar sua própria desumanização, o humano sempre está aquém da natureza e das coisas porque busca entender-se  nelas ou através delas, as ações e o sentir se concentram nos elementos da natureza, nos objetos. O universo, as coisas e a própria linguagem é o semem do entendimento do humano. É por isso que em Trivium a voz poética transcende a palavra enquanto fato lingüístico e busca também expressar-se através de desenhos e números. Enfim Cardozo, ao modo de Pitágoras, parece entender que o mundo é uma lira de no mínimo sete cordas.

Em Trivium, Joaquim Cardozo convida o leitor a beber o seu suor, como Baudelaire. Constrói seus poemas de modo a evitar a leitura fácil, a mera experiência do “compreensível”. Convida-nos a uma viagem além do ar, rumo ao não do espaço e do tempo: É preciso partir enquanto é noite,/ Enquanto é aspiração do absoluto./ É preciso voar no vórtice das lendas, das histórias antigas./ Viajar, circular, além das águas, além do ar./ Do ar- plâncton do espaço, alimento das asas./ - casulo da luz – crisálida. Eis que findo a leitura deste poeta que, como o bailarino, deverá ter quebrado os ossos em segredo antes de se mostrar em público. Este exercício é o que falta a muitos que hoje se dizem poeta. Com Cardozo sabemos que poesia é antes de tudo labor com as palavras em busca do belo e da revelação do ser-linguagem. 

Escrito por jacineide às 03h01
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SEMANA SACRO-SANTA COM PEIXES

                               

                         

                               (Henri Matisse)                                                                       

                            Natureza Móvel com Peixes Vermelhos 

O mundo faz-se do olhar

espaços sugeridos pela diagonal

planos sem volume

dissolvem-se na memória 

 

As mãos lentamente

erguem a escritura das ondas

 

O olhar afoga-se

por entre o anil do céu

e o musgo das árvores

compõe-se o quadro dos amantes

navega-se sobre as águas do ar

plumas semeadas de olhos

 

O navio alça-se pássaro

lança-se em águas etéreas

a âncora faz-se ânfora

os corpos entrelaçam-se

na trilogia do sonoro do diáfano do móbil

na ânsia do toque

os olhos

mergulha-os no aquário

com peixes vermelhos


 

 



Escrito por jacineide às 11h45
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MUNDO SACRO E ILUMINAÇÃO PROFANA

Michelangelo. Pietá. 1499.

 

Santa Teresa de Ávila 

 (1515-1582)

 

Vivo sin vivir en mí 

 

Vivo sin vivir en mí,

y de tal manera espero,

que muero porque no muero.

 

Vivo ya fuera de mí

después que muero de amor;         

porque vivo en el Señor,

que me quiso para sí;

cuando el corazón le di

puse en él este letrero:

que muero porque no muero.  

 

        ****       



Escrito por jacineide às 11h14
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Esta divina prisión

del amor con que yo vivo

ha hecho a Dios mi cautivo,

y libre mi corazón;

y causa en mí tal pasión            

ver a Dios mi prisionero,

que muero porque no muero.

 

¡Ay, qué larga es esta vida!

¡Qué duros estos destierros,

esta cárcel, estos hierros          

en que el alma está metida!

Sólo esperar la salida

me causa dolor tan fiero,

que muero porque no muero.          

 

¡Ay, qué vida tan amarga          

do no se goza el Señor!

Porque si es dulce el amor,

no lo es la esperanza larga.

Quíteme Dios esta carga,

más pesada que el acero,           

que muero porque no muero.

 

              ****



Escrito por jacineide às 11h14
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Sólo con la confianza

vivo de que he de morir,

porque muriendo, el vivir

me asegura mi esperanza.            

Muerte do el vivir se alcanza,

no te tardes, que te espero,

que muero porque no muero.

 

Mira que el amor es fuerte,

vida, no me seas molesta;           

mira que sólo te resta,

para ganarte, perderte.

Venga ya la dulce muerte,

el morir venga ligero,

que muero porque no muero.          

 

Aquella vida de arriba

es la vida verdadera;

hasta que esta vida muera,

no se goza estando viva.

Muerte, no me seas esquiva;         

viva muriendo primero,

que muero porque no muero.

 

Vida, ¿qué puedo yo darle

a mi Dios, que vive en mí,

si no es el perderte a ti                  

para mejor a Él gozarle?

Quiero muriendo alcanzarle,

pues tanto a mi Amado quiero,

que muero porque no muero.

 

                

 



Escrito por jacineide às 11h11
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O Êxtase de Santa Teresa (Escultura)
              Gianlorenzo Bernini

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Eis uma obra daquelas que nos deixam  mais petrificados do que a própria estátua. O orgasmo nada metafísico de uma santa, Teresa D´Ávila, um desses casos que a Igreja tem mais a silenciar que a revelar. O êxtase divino, uma espécie de revelação sensual, é aqui representado com uma imanência pouco comum em uma obra sacra. Ainda que se trate de Santa Teresa, posto ter sido santa por sua entrega quase carnal ao Cristo de suas fantasias. Mas ainda assim é de espantar que, esculpida para uma igreja, até hoje seja um templo cristão o museu que a conserva: a Igreja de Santa Maria della Vittoria, em Roma. De espantar, em verdade, não. A obra é magnífica e, lembremos  o Cântico dos Cânticos, há sempre uma justificativa teológica para o amor. Este livro bíblico é curioso por não mencionar uma única vez a palavra Deus. Mesmo assim os exegetas o interpretam como uma prova do amor entre um homem e uma mulher de acordo com a vontade deste deus assexuado dos cristãos.

Em O Êxtase de Santa Teresa, a começar pela figura dúbia do anjo - que é, pelo menos iconograficamente, o cupido da tradição pagã, com direito à flecha e um riso embevecido e sedutor - o que transpira é a sensualidade declarada. Não é uma contemplação, é um orgasmo. A entrega e o desfalecimento do corpo após a cópula. Santa Teresa goza observada e levada pela figura alada deste anjo-cupido, que, sutilmente, levanta o hábito de uma Teresa prostrada. A única presença divina pode ser entrevista pelos raios dourados que caem sobre as duas figuras. Espantoso, belo. Uma obra que merece ser contemplada. 


Bernini

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Escrito por jacineide às 01h06
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Sor Juana Inés de la Cruz e a Libido da Escrita

 

                                             

Uso palavras ao invés de dedos ou é como se tivesse dedos na ponta das palavras... à  la Roland Barthes. No invólucro da carne frágil para Sor Juana a linguagem foi, de fato, uma pele. Quem é esta mulher? Pouco ou nada se sabe sobre Sor Juana (1648-1695) no Brasil. O único que deu devida atenção a esta escritora foi Manuel Bandeira que a introduziu em sua Literatura Hispano-Americana em 1949, quando o poeta era catedrático da disciplina na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Que Bandeira é esta que impudente tripudia na gávea? Mas Octavio Paz diz que ela inaugura a posição do poeta moderno frente ao cosmos, pois reflete especularmente sobre a linguagem, atitude radicalizada mais tarde por  poetas  como Mallarmé.

 

Lapso imperdoável da crítica brasileira, ignorar uma das inteligências mais fecundas do nosso continente no século XVII. Nascera em Nova Espanha (México atual). No período Barroco, quando o grão da voz feminina não podia ser semeado na escrita, Sor Juana se consagra como a grande primeira escritora da América Latina. Semen est verbum Dei ( A semente é a palavra de Deus) professa em seu tempo o padre Antônio Vieira.

 

Cingida às limitações da época, Sor Juana foi a mulher que refletiu e teve condições de optar sobre o seu destino. Avessa à idéia do casamento, seu ingresso ao Convento das Jerônimas (reiterado por uma assinatura com sangue de suas veias foi o artifício encontrado pela freira – sem dotes e sem títulos de nobreza – para se dedicar exclusivamente ao afã da palavra, como assinala Jorge Schwartz (professor de literatura hispano-americana da USP).

 

Sor Juana vai em busca do Logos Spermátikos, do sêmen da palavra. A dedicação é plena, a entrega absoluta, liquefeita em fidelidade. O amor pelo Logos (palavra, discurso) não se fraciona em outros interesses. Ela não opta por ser freira, mas por não ser esposa, mulher submissa e silenciada. Sor Juana fraciona a imagem de Deus, a sentença de Vieira e professa veladamente: Semen est Verbum... (A semente é a palavra).

 

Entre seis e sete anos, pede a cumplicidade da mãe para vesti-la como menino e enviá-la à Universidade. Descobre desde menina que para viver sua paixão pelo logos, deve driblar aqueles que tinham o poder e a chave do conhecimento: os homens...

                                                            ****



Escrito por jacineide às 00h35
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